22 de fev. de 2022

DEIXE IR

Como dizer adeus pra alguém que você nunca imaginou sem? Eu não disse adeus. Não disse nada. Apenas fui embora. [Caio Fernando Abreu]

Conheci Alan em 2011, quando Eduardo ensaiava aparecer em minha vida. Era final do ano, estávamos em um churrasco de um amigo em comum. Alan era alto, moreno, cabelos e olhos pretos, porte médio, coxas grossas, sorriso bonito, voz máscula, fazia a linha discreto e antissocial, mas era só tipo, porém eu só iria descobrir depois. Na época ele namorava um cara antipático e ficamos só nos cumprimentos. Mas naquele dia o achei um cara interessante, porém como tinha em mente que seria um encontro para nunca mais, fiquei na minha.

Os meses se passaram e para minha surpresa o encontrei mais duas ou três vezes em eventos do mesmo amigo em comum. Ficamos timidamente em rápidas trocas de olhares, mas não passava disso. Nessa época eu já me tolhia focado em Eduardo, tive anos intensos de trabalho, carteira fixa de clientes e pouco tempo para vida privada.

Em 2014 retornando de São Paulo para um contrato de trabalho em outra cidade, encontrei Alan nos aplicativos de rede social, entre uma curtida e um comentário, começamos a conversar,  na trocamos algumas impressões e rolou o primeiro encontro no cinema. Não recordo qual filme assistimos, mas depois esticamos para seu apartamento e foi lá que rolou a primeira transa.

O encaixe foi de primeira, nos beijamos e deslizamos nossas mãos degustando cada momento, foi um encaixe bom, gostoso e quase que perfeito, pois os corpos não se repulsavam, mas se atraiam e se envolviam com quem se conhecesse a muito tempo. Diferente do sexo casual com crushs e clientes, o sexo com Allan foi com pegada de namorado. Uma curiosidade é que ele preferia ser ativo, talvez como afirmação, pois seu porte físico fazia o estilo macho alfa, mas na cama, além de um belo par de coxas, ele tinha uma bunda muito suculenta. Naquela noite fui passivo porque Allan quis conduzir assim, mas não deixei aquela bunda intacta sem umas boas linguadas.

Foi o primeiro encontro no qual me senti envolvido de verdade, depois de tantos anos recluso e focado como GP. Depois daquela sensação gostosa de ter feito amor e transado com alguém que havia mexido com minhas bases, veio o julgamento interno. Como levar isso adiante sendo garoto de programa?

Infelizmente eu não soube e acho que o Alan também não; mesmo ele não sabendo de Eduardo. Sem terminar frases que denotassem um compromisso no modelo padrão, assim construímos uma espécie de namoro onde nos encontrávamos de tempos em tempos, passávamos alguns dias juntos e depois nos separávamos, mantendo curtos diálogos por redes sociais. Era estranho porque não era um amor idealizado de comercial, mas livre, como fases da lua.

Com o tempo fomos conhecendo a intimidade um ao outro e nos soltando mais no sexo. Houve um dia em que fui ativo com Allan, penetrar aquele homem másculo, coxudo e bundudo me fez pirar. Mas com o tempo saquei que Alan tinha uma pegada mais gouine, ou seja, sexo sem penetração, mas que curte beijos, toque e carícias. Mesmo assim ele insistia em querer me penetrar, mas nem sempre ia até o fim. Allan era um homem carinhoso com cara de bravo, adorava super-heróis e colecionava diversos deles em diferentes escalas. Em seu quarto haviam estantes repletas de Superman, Homem Aranha, Batman, colchas, toalhas e almofadas temáticas.

Além de colecionador era bom anfitrião, bom cozinheiro, churrasqueiro e tinha bom gosto para decorar a casa, gostava de dormir abraçado (algo que me incomoda bastante) e roncova. Esse combo definitivamente era seu calcanhar de aquiles, hehehe. Considerando ser uma noite a cada encontro, eu relevava feliz.

Me dei conta do nosso envolvimento quando tivemos um natal juntos, no qual passei com sua família e a amigos, dormimos juntos e no dia 25 após o café da manhã voltei para casa. Ao sair da garagem e ver a imagem de Alan se distanciando pelo retrovisor me dei conta que estávamos dando uma passo importante. Essa ficha me fez retroceder, embora minha relação com Alan fosse de carinho, tesão e amizade, minha vida dupla como Garoto de Programa seria um problema caso fosse consenso um relacionamento.

O fato é que nem eu e nem ele tivemos iniciativa, não partiu de ninguém cobrar uma resposta, fazer uma declaração ou chegar com um pedido de namoro. Nada, absolutamente nada. Medo? Insegurança do que queríamos um com o outro? Penso que sim, fomos covardes. As juras de amor ou desejo só saiam nos encontros ao vivo e num tom baixo de voz.

O tempo passou e ficamos nos acompanhando por rede social. Certo dia Alan publicou que num exame de rotinha havia descoberto um câncer benigno. Como bom exibicionista relatou todo o processo até o final do tratamento, que tinha sido um sucesso.

Meses depois Alan anunciou que iria se mudar para Brasília, para assumir um novo cargo na empresa. Em nossas últimas conversas antes da viagem Alan disse saber de Eduardo e confessou que queria ter falado comigo há mais tempo. Envergonhado e com medo do julgamento me limitei a confirmar, mas fui surpreendido por sua admiração. Expliquei que esse era um dos motivos para me envolver em um namoro com ele, tinha medo de ferir seus sentimento se soubesse da minha condição como GP.

Alan foi extremamente carinhoso, disse que não mudaria em nada, que entenderia e me respeitaria.

30 de dezembro de 2019

... [Alan comentando foto em status]

-Tão lindo...

- pra combinar com meu crush.

-Não quero ser seu crush. Queria ser seu namorado.

-Eu aceito, hein, mas estamos longe, ficaria complicado para ambos. Meu carinho e sentimento por você é eterno.

A conversar se estendeu para uma leve discussão na qual Alan me acusou de não querer nossa relação. Eu pelo meu lado argumentava que faltava empenho dos dois. E Alan arrematou.

-Eu sempre quis namorar você. Sempre.

Em março veio a pandemia e o que já era distante ficou mais. Todos tentando se proteger reclusos em seus homeoffices. Até que Alan publicou que havia contraído covid e estava em isolamento. Não tínhamos vacina ainda, então o covid parecia uma roleta russa no qual saia na frente quem tinha menos idade e melhor condição física. Acompanhei a evolução do quadro de Alan pelas redes e felizmente ele ficou bem.

 

3 de fevereiro de 2020

... [Alan comentando foto em status]

-Meu príncipe. Eu gosto tanto de você.

-Eu também amo você.

-A gente tinha que ficar juntos

- pra combinar com meu crush.

 

20 de fevereiro de 2020

Queria te falar uma coisa. Rs

-Diga...

-Eu fui pedido em namoro. Achei melhor te avisar. Porque as vezes trocamos umas mensagens carinhosas. Acho que você me entende.

-Sim, entendi. Sem problema, lindão. Se você ta feliz isso me conforta.

- Obrigado lindo. Você continua sendo meu number one. Pena que você não acredita.

- Você também o meu. Eu amo você e quero seu bem.

-Eu também. Você é o homem mais completo. Mais incrível que já conheci.

-Eu entendo nossas limitações por agora.

 

6 de setembro de 2020

Alan escreve contando duas novidades, a primeira é que devido a pandemia foi transferido novamente para nossa cidade e ficaria até fevereiro de 2021. A segunda novidade era que estava solteiro e queria me ver.

Ensaiamos tantas datas e só conseguimos nos ver no dia 28 de outubro. Alan estava mais lindo do que nunca, corpo malhado, cabelos mais longos e mais sério do que o habitual. A cada beijo dava para sentir sua respiração e sua pegada mais forte. Alan insistia em ser ativo, algo que combinava com seu porte estilo parrudo malhado. Mas tinha uma bunda que me deixava louco, porém quase intocável. Foi uma noite especial, fizemos amor e depois adormecemos abraçados.

Depois daquela noite continuamos a nos falar por rede social. Se antes nos ver presencialmente, com a pandemia isso ficou pior. Alan havia sumido das redes, sem postagens recentes até que derrepente, vejo uma foto sua nos status, acamado, abatido e com uma sonda no nariz. Ele olhava para câmera com olhar triste e com um brilho baixo.

16 de fevereiro de 2021

Era uma postagem na qual Alan se mostrava internado, uma recaída do câncer que havia tratado tempos atrás. Chamei-o no Messenger, conversamos e me dispus a visita-lo assim que molhorasse. Passei alguns dias monitorando e conversando com Alan, cobrei de permissão para ir visita-lo

- Oi mor, poxa, não imaginei que estava passando por tudo isso. Desde já você está em minhas orações, tudo isso vai passar, tenha fora, você é e sempre será meu guerreiro. Cuide-se e se precisar de algo em que eu possa ajudar, saiba que estou por aqui. Amo você.

 

-Obrigado lindo. Pena que a gente se veja tão pouco (por culpa sua).

Ele adorava me culpar por isso e eu sempre argumentava, mas dessa vez eu cedi para não cansa-lo

-Eu sei mor, mas havendo tempo a gente corrige isso...Quando puder receber visitas me avisa.

 

23 de fevereiro

Escrevi para Alan

-Oi mor, como tá na recuperação? Tá melhor?

24 de fevereiro

Alan respondeu

É bem lenta

-Mesmo lenta ta caminhando, isso que importa. Logo você estará novo em folha, meu bebezão guerreiro.

 

19 de março de 2021

Eu escrevo para Alan

-Oi meu lindão, como ta meu herói? Passando para deixar um beijão e um abraço apertado.

 

23 de março

Ao acordar e pegar o celular na cama fico ATONITO. Vários comentários de condolências na foto de Alan, ele havia falecido... Uma angustia me invadiu, acessei todos comentários procurando montar um quebra cabeça. Fui direto em nossas mensagem e do outro lado nenhum sinal...

Precisei de um dia todo para me refazer. Em conversa com um amigo em comum ele me explicou que Alan teve queda de imunidade devido ao covid e em janeiro precisou fazer uma nova cirurgia, pegou uma infecção que se generalizou, sem imunidade os remédios não faziam mais efeito.

Foi como levar um soco no estomago, derrepente eu não o veria mais, não conversaríamos mais, não nos abraçaríamos mais, nem poderemos nos beijar. Foi uma dor oca, sem lágrimas, mas de grande frustação pelo que deixou de ser. Em muitos dias me pego arrependido de não ter segurado sua mão e ter vivido nosso namoro. Já tive a fase de me culpar, de te culpar e de dividirmos a culpa.

Também sou grato pelo que vivemos. Mesmo sem tê-lo ao meu lado, pude lhe dizer “Eu amo você”. Você foi e será meu eterno amor. E espero um dia poder te reencontrar. As vezes acho que é pouco demais as histórias que passamos aqui, por isso espero te reencontrar. Mas a esperar dói tanto...

 

O garoto errado

Um comentário:

  1. Poxa Eduardo, sinto muito pela sua perda.
    Dizer que entendo o que está sentindo seria mentira de minha parte.
    Já sofri algumas perdas em minha vida, mas nunca no campo sentimental, aliás, acho que me "blindo" nesse sentido, não me permitindo criar vínculo afetivo com nenhum outro homem.
    Nas minhas relações com outros homens busco apenas por sexo, e deixo muito claro a todos, que não tenho interesse em criar qualquer tipo de vínculo, ou compromisso.
    Quanto ao Alan, que sua alma encontre o descanso eterno, e que você guarde as boas lembranças dos momentos vividos em sua companhia, mas esteja com o coração leve e aberto para novas possibilidades, que com certeza surgirão, pois você é uma pessoa especial, e merece SER FELIZ !
    Grande abraço,
    .
    Senhor X, ou MILK.

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