30 de dez. de 2015

O SENHOR X


Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. [Clarice Lispector] 

Com o advento da internet as pessoas passaram a se estruturar em redes, fato que ampliou nossa capacidade de comunicação e sobretudo formação de novos grupos que hoje derivam por localização e afinidades. Numa forma mais aprofundada a internet criou conceitos como, CYBERCULTURA - CYBER – que significa algum local que possui uma grande concentração de tecnologia avançada e a CULTURA – hábitos que herdamos e aprendemos de acordo com nossa história, origem e tradições. O termo Cibercultura ganhou um novo prefixo com a junção para CYBER+CULTURA, abrangendo os fenômenos associados as forma de comunicação digital. Esse conceito absorveu nossas vidas de tal forma que hoje sentimos a necessidade de buscar cada vez mais o outro de forma digital, isso quando não queremos expor nossos passos nas redes digitais e aplicativos. Eduardo White de certa forma é reflexo deste conceito e só nasceu e pode construir sua identidade por associar sua vida como Garoto de Programa explorando as ferramentas de comunicação digital na internet e a partir disso compartilhando suas histórias no que chamamos de CYBERSPAÇO. 

 O livro Cyberculture de Pierre Lévy traz reflexões oportunas para se repensar os caminhos da humanidade e, em especial, da aprendizagem, com o advento das tecnologias digitais. 

Hoje muitos Garotos de Programa saíram das ruas e saunas e migrou para os sites, blogs e anúncios virtuais. Somos produtos dispostos em prateleiras digitais nas quais o cliente visita, clica, copia, analisa e até degusta visualmente (sem tocar), a fim de escolher uma opção que corresponda as suas necessidades. Esse fato faz com que as relações sejam voláteis, ou seja, não há fidelidade entre cliente x produto . Troca-se de produto como quem troca de roupa. Mas seria mesmo impossível um garoto de programa fidelizar uma clientela pela internet dada a tantas opções? 

Os motivos podem ser diversos, qualidade, preço, acessibilidade, versatilidade, afetividade, entre outros fatores que possam fazer com que sejamos fieis a tais produtos. Isso não garante que seu consumidor vá experimentar a concorrência, mas uma vez que ele experimenta e compara, ele poderá ter a certeza de que seu produto é insuperável e cada vez mais se adapta as suas necessidades. No sexo pago a coisa também caminha para o mesmo rumo. 

Senhor X é um homem polido,financeiramente estável e extremamente organizado. Aparenta ser de uma família bem constituída e muito fiel as tradições. Tanto que em sua juventude ele se fechou para experiências afetivas e sexuais, foram cerca de 30 anos abdicando de seus desejos em nome da família. Passado esse período de reclusão, ele decidiu aventura-se pelos seus desejos reclusos e o canal mais rápido foram os sites que ofereciam acompanhantes masculinos. 

Seus programas não poupam conforto e tempo. Tradicionalmente os encontros acontecem sempre aos sábados, no período das 8h às 16h na suíte máster ou presidencial de algum motel. As suítes são compostas por um quarto espaçoso, com TV, ar, frigobar, sauna, piscina, hidro e outras regalias. No encontro, além de muito sexo há tempo para conversa, rodadas de café ou almoço, pausa para cochilo, hidromassagem e piscina. Não necessariamente nessa ordem. O valor era um mero detalhe no qual ele perguntava uma única vez para certificar-se e agendar. Senhor X iniciou sua vida sexual com dois garotos, os quais ele enfatiza ter tido muita sorte pela forma como foi atendido, mesmo assim ele não os manteve cativo de outros encontro. 

Nesse período como um bom vivant do sexo pago ele sabia encontrar informações e os garotos mai recomendados. E, através de um site de avaliações o Senhor X encontrou relatos e registros sobre Eduardo White ponto chave que o fez acompanhar o blog do Garoto Errado. 

Dia 20 de novembro de 2015 

Eduardo, boa noite !
Em seu Blog, você informou que estará em nova temporada em SP, de 09 à 19 de Dezembro. - Estava navegando pelo site CAMBIO DE BOYS, e confesso que fiquei impressionado com os comentários a seu respeito (positivamente). - Caso venhamos a nos conhecer, você será o 3º Profissional com quem sairei. - Sempre realizo meus encontros no Motel XXXX, que fica na Marginal Tietê, não sei se você o conhece, mas é muito confortável, já que quase sempre (exceto uma única vez) consegui a suite master, que contempla piscina aquecida, hidromassagem e sauna. - Em função do que oferece a suíte, sempre peço ao Profissional um programa de 6 horas, pois a minha intenção é relaxar me utilizando das acomodações da suíte, ao lado de uma companhia agradável, que neste caso, será a sua (estou confiando novamente na minha intuição, que com os outros 2 Profissionais, ela não me decepcionou). - Caso você concorde, não sei se você possui problemas com horário (para atender na parte da manhã), geralmente temos realizado os programas das 08:00 às 14:00 horas. e SEMPRE aos SÁBADOS. - Gostaria de saber se há interesse de sua parte, e por gentileza, qual é o preço de seu atendimento (neste caso, de 6 horas). 

Aguardo seu retorno. Senhor X 

Na ocasião eu planejava minha última temporada de 2015 em São Paulo e certamente esse seria um cliente diferenciado. Mas coube a questão: Por qual motivo SenhorX ainda procurava novos garotos? O que eu poderia proporcionar a um consumidor tão exigente que levasse ele a repetir seus encontros comigo? 

Enquanto pensava nesses questionamentos tratei de responder o e-mail e fechar nosso encontro pra o dia 12 de dezembro. No tramite de acertar os detalhes Senhor X continuou acompanhar meu blog e dias depois recebo a confirmação e um pedido inusitado. Senhor X queria antecipar nosso encontro para duas semanas em São José dos Campos pelo mesmo período, sem desmarcar nosso encontro para o dia 12 de dezembro. 

Por incompatibilidade de agenda pedi que nosso encontro fosse agendado para domingo. E no dia marcado fui ao encontro do Senhor X que já me esperava em sua suíte paramentada e preparada para às 6 horas. No encontro tudo ocorreu com perfeita maestria e procurei proporcionar o meu melhor. Como era um período estendido fiz tudo de forma tranquila, comecei com uma massagem corpo a corpo, seguida de muitos toques e beijos, curiosamente Senhor X nunca havia beijado com línguas entrelaçadas e seu corpo havia sido pouco tocado. Creio que os dois primeiros garotos apenas foram pelo caminho mais habitual, penetrar seu cliente com a finalidade do prazer anal e por mim ejaculação. 

Refletindo pela lógica mercadológica e me vendo como um produto, pude constatar que todo produto além de grife tem características que os diferenciam uns dos outros, trata-se da embalagem, matéria prima, designer, preço, gosto, cor, cheiro, sabor, sensação de prazer diferenciado e memória afetiva. Esse conjunto de fatores que criam uma identidade para quem o consome. No sexo isso não é diferente. 

No encontro com Senhor X estava informado ao meu respeito. Ele sabia que eu gostava de café, que não aprecio acordar muito cedo e até me conversou sobre alguns textos publicados em meu blog. Na cama tentei percorrer e explorar caminhos não conhecidos por ele, o toque, o beijo, a penetração cadenciada, o sexo oral, a paciência e a calma foram fatores determinantes. Senhor X ficou tão agradecido por esse domingo que marcou mais um encontro para domingo seguinte, além do encontro previsto em São Paulo, todos igualmente com duração estendida. Seria ele um cliente fidelizado ou queria apenas se certificar de algo que sentiu diferente? Ainda era cedo para saber. 

A TEMPORADA 

No dia 08 de dezembro como previsto cheguei a São Paulo para minha última temporada do ano. Porém, nesta viagem fui acompanhado de um amigo de Campinas, tanto eu como ele somos muito diferentes na forma (corpo), mas temos estilos parecidos. Era a primeira vez dele em temporada em São Paulo e logicamente era um risco visto, que as primeiras viagens a capital saem como um investimento até que o garoto possa fazer sua carteira de clientes. 

É a lei do mercado, todo novo produto precisa ter uma oferta boa, além de divulgação e estratégia de marketing para se tornar conhecido e bem quisto por seus consumidores. Enquanto eu atendia no meu fluxo normal, meu amigo ficou três dias parado aguardando seu telefone tocar. 
Desconfiado disso, na véspera do nosso encontro Senhor X perguntou via whatsapp como meu amigo ia em sua primeira temporada a capital. Respondi que as coisas não iam bem para ele e que estava tentando ajuda-lo, fiz um novo ensaio fotográfico dele e iríamos enviar as novas fotos para um site de anúncios. Diante de minha resposta o Senhor X propôs um encontro a três a fim de ajudar o rapaz, mas queria certificar se para mim seria algum problema. 

Acatei o pedido com alegria, pois sei o quanto é difícil trabalhar numa cidade como São Paulo. Talvez para muitos garotos que possuam clientes cativos isso soaria como uma ameaça ao seu negócio, visto que compartilhar contatos e clientes é sempre um risco para a concorrência, confesso que esse pensamento é comum, mas do mesmo modo que ele vem, ele vai. Logo penso que não devemos ter o sentimento de posse sobre algo ou alguém. Isso é um circulo vicioso ao qual não devemos alimentar. Senhor X é uma pessoa e não um número, ele poderá se cansar um dia e partir para novos horizontes, novos desafios e assim a vida segue. 

EDU, GOSTARIA QUE VOCÊ AJUDASSE SEU AMIGO. Pediu Senhor X em tom confidencial. 

Sim, estou fazendo o possível para que tudo corra bem. Respondi. 

Em outro momento: 
EDU, VOCÊ NÃO ESTARÁ EM SÃO PAULO NESTE FIM DE SEMANA, POIS SUA TEMPORADA SERÁ MAIS CURTA. FICARIA CHATEADO SE EU MARCASSE MAIS UMA VEZ COM ELE? 
Não, fique tranquilo. Marque com ele, tenho certeza que vai gostar! Consenti. 

Embora fosse curioso o fato do Senhor X me pedir tal permissão, achei de certo modo respeitosa. Fidelidade? Cedo ainda para dizer, mas se houve a pergunta para minha aprovação é por algum motivo. Esse desprendimento pode servir de laboratório para que eu como observador faça minha análise interna. Quanto ao Senhor X, muito além dos números que ele pode proporcionar a um garoto, ele proporciona respeito e confiança, os quais devo retribuir a ele. 
Neste dia 29 fez um mês que nos conhecemos. Nossas conversas já saiu do nível de gentileza para ironias e charadas enigmáticas temperadas com bom humor. 

Senhor X: Amanhã fará 1 mês que nos conhecemos! 
Eduardo: Nossos encontros seguidos foi um recorde para você? 
Senhor X: Vai pro Guiness, até então o máximo foram duas vezes com o mesmo profissional. 
Eduardo: Fico lisonjeado por isso. Confesso que imaginei que não iríamos além de dois encontros. Senhor X: São tão ruins assim? 
Eduardo: Não, claro que não. Pare de levar tudo para o lado negativo. Eu achei que não iríamos tão longe pois você é do tipo de pessoa seletiva, que escolhe a dedo com quem quer sair. 
Senhor X: E por que então você não levava fé? E não tem que ser assim? 
Eduardo: É que é comum também um “cliente” enjoar de um garoto quando sai muitas vezes seguidas. Mas isso não é regra...apenas situações que lidamos com o passar do tempo. 
Senhor X: Por isso, vá praticando seus números, só esquece das algemas!! 
Eduardo: Hahaha! Esquecidas!

O garoto errado

22 de dez. de 2015

SEXO E A REVOLTA DO GNOMO DA SORTE


É preciso possuir mais virtudes para manter a boa sorte do que para suportar a má sorte. [François La Rochefoucauld]
 
Todos nós em diferentes fases da vida temos um ritual ou um talismã que nos faz acreditar que a sorte estará ao nosso lado. Eu tinha um cliente o qual intitulava O GNOMO DA SORTE – Tal “apelido” não foi dado por mim, mas sim por um amigo que também é GP e havia atendido um senhor baixinho, grisalho, gordo, de nariz, mãos e dote grandes e relativamente peludo.
Foi um único encontro para que meu amigo se referisse ao cliente como GNOMO, apenas isso. Foi também um único encontro para que esse senhor não sentisse empatia e nunca mais procurasse meu amigo e direcionasse sua atenção a mim.

Após o encontro fatídico esse senhor soube da minha existência e resolveu me testar, posso dizer que nosso sexo sempre foi de muita energia física, cadenciado por alguns momentos mais tranquilos, com toque e beijos, mas na maioria das vezes esse cliente sempre exigia bastante de minha performance, a qual sempre cumpri como combinado, sendo ativo, passivo, proporcionando beijos, massagens, beijos gregos e chupadas por todo seu corpo peludo.

Foram dois anos tendo o GNOMO DA SORTE em minhas temporadas por São Paulo e a cada encontro ele ressalvava qualidades em mim que o faziam retornar. Num desses encontros ele disse: VOCÊ TEM ESTRELA.

Entretanto, porém, contudo e todavia, toda sociedade e acordo comercial pode sofrer abalos e dessa forma, nesta temporada final de 2015 eu perdi meu GNOMO DA SORTE. Tudo ocorreu da forma mais patética possível, mas um fato que confessor ter abalado parte do meu dia.
Após uma tarde com duas horas de sexo nas quais fui revirado pelo avesso, o senhor baixinho por fim gozou, foi para o banho e quando saiu no vapor suando trocou de roupa para me pagar, eis a surpresa, ele deixou sobre a mesa três notas que não davam a soma do cachê que já vinha sendo pago por ele a pelo menos um ano. Cuidadosamente o corrigi. Odeio passar por isso e foi a primeira vez que o fiz.

É... ainda faltam R$ 50,00. Disse
Você aumentou o cachê? Disse ele em tom surpreso.
Não, o valor é o mesmo, desde minhas últimas temporadas.
Mas da outra vez paguei essa quantia. Insistiu ele.
Não, você pagou o valor que citei agora. Disse olhando em seus olhos.
Você esta duvidando de minha palavra? Exaltou-se

Neste momento fiquei sem defesas e não quis dizer nada, mas eu estava certo, porém resolvi me calar. Bom, está bem, aqui esta! Tirou mais uma nota de R$ 50,00 e pôs sobre a mesa.
Ok, obrigado.

Abri a porta e o vi sair, saúva e aparentava nervosismo. Fechei a porta, deixei o dinheiro sobre a mesa e fui para o quarto incomodado com a situação. Pensava: “Ele foi meu cliente por dois anos e nunca havíamos tido esse problema e lá estava aquela fatídica situação”. Em minha memória vieram todos nossos encontros, temporadas e até o dia em que aquele senhor conheceu meu apartamento na rua Frei Caneca, época em que morei em São Paulo e já cobrava o cachê solicitado a ele. Não poderia me conformar com aquilo. Ele se sentiu injustiçado sem ser.

Conectei no skype, puxei seu contato e escrevi um breve relato rememorando nossos encontros e enfatizando os valores pagos, isso certamente iria provocar mais sua ira, mas eu não poderia me calar e deixar que ele erroneamente me tachasse de aproveitador ou duvidasse da minha palavra. Relato feito e enviado. Instantes depois o vi logar e ficar online, ele recebeu a mensagem, leu e sua sua resposta foi lacônica, apenas me bloqueou, sem dizer nada, mas ao menos leu o que escrevi.

Paciência, minha sensação de dever cumprido era plena, quanto ao meu GNOMO ele já não me pertence mais, ficou livre para escolher outro pupilo a abençoa-lo com toda sorte que os gnomos possuem. Dizem ainda que é raro vê-los, mas caso isso aconteça é por que algo em você é diferente e certamente muitas sorte estará presente em seu caminho.
Sem meu gnomo eu estou a mercê do acaso. Porém já é dezembro e como todo fechamento de ciclo novos ventos sopram a nosso favor. Ele poderá me amaldiçoar, se chatear e rogar até pragas, mas nunca poderá dizer que deixei de lhe proporcionar prazer, caso contrário nossa “relação comercial”  não duraria a vida de um trevo de quatro folhas.


O garoto errado
garotoprivado@hotmail.com